10 de abril de 2011



Algumas lágrimas nos olhos misturavam-se à fumaça insistente do cigarro tragado naquela noite. Sobre a mesa uma garrafa de whisky, um copo com duas pedras de gelo, anunciava a despedida embriagada. Entre um copo e outro escorriam lágrimas de um trago só. O malte que deslizava pela garganta, queimava por dentro e embaçava os olhos com aquela fumaça vazia de sentimentos.
Sinto que escorre cachoeiras dentro de mim. Tudo isso é o resultado de uma negação da tua falta que se vai diluindo em partes desiguais de gelo e de destilação alcoólica. Sou eu contigo e você em mim, mesmo ausente de todos os sentimentos que um dia nos uniu e daquelas histórias inventadas em momentos propícios e alheios a nossa vontade. Enquanto penso em pretéritos que se encontrão no futuro, me dirijo à janela para ver se vais chegar. A cabeça que andara pelas estradas das recordações, que deixastes em mim, desvanece e recriam-se sem terem deixado de existir.
O teu maço de cigarros, meio vazio sobre a mesa, aquele livro aberto entre rascunhos amassados e a tua ausência no sofá, vai diminuindo a cada gole ingerido. A bebida que agora está sem gelo, faz-se pura, assim como as emoções que ainda me permites sentir. O telefone não toca, e é ao seu silêncio autista que brindo. O copo escorrega pelas minhas mãos, e se parte sobre o chão bem ao lado dos meus pés…
Acendo um dos teus cigarros. Entre uma tragada e outra, bebo mais um gole de whisky, agora sorvido diretamente da garrafa. A nicotina funde-se com o álcool destilado, e é mais uma hora que se extingue. Sento-me nas escadas em frente à porta, e espero por ti, que agora não passas duma vaga memória. Olho em direção ao horizonte, onde a lua brilha, só para te ver chegar. O amanhã não virás e no teu lugar estarão duas dores: a dor de cabeça que não suprime a dor provocada pela tua ausência.